Diários de ressonância – Paula Tumolo

                                                                                  Rio, 06 de dezembro de 2013

Queridxs,

            Chegamos ao fim do semestre, e é hora de olhar para o caminho percorrido e para as possibilidades futuras. É difícil traçar o trajeto percorrido pelos envolvidos nessa jornada, em parte porque, como a maioria do grupo, me inseri nesta aventura muito após a concepção do curso, e em parte também porque este caminho não foi linear, e sim um emaranhado de idas e vindas (e não haveria de ser de outra forma, já que desde o início estabelecemos que o importante fosse o caminho em si, e não a meta).

            Gostaria, em primeiro lugar, de expressar minha admiração e gratidão pelo grupo de alunos e professores que, não só deram o ponta pé inicial para a concepção deste curso, mas também trabalharam arduamente, contra todos os contratempos, para que esta ideia se tornasse realidade.

            Como já disse em sala, gostaria de refletir também sobre o quão importante foi o que fizemos ao longo do semestre, legitimando a importância e necessidade do uso do espaço universitário para falar sobre a autogestão e para quebrar certos moldes didáticos. Trazer a discussão política para dentro das salas do Instituto de Psicologia, quebrar a divisão entre os departamentos, implodir a hierarquia professor/estudante, e instigar a troca entre a prática e vivência e a teoria foram todas conquistas que devem ser reconhecidas pelos que fizeram parte dessa jornada.

            Quanto ao nosso tema, como foi já foi colocado em nossa última reunião, parece que estamos cada vez mais longe de uma resposta. No entanto, a razão disso pode ser exatamente o que vimos ao longo do semestre: Não existe uma concepção única de autogestão. Até porque, a concepção de autogestão não pode ser desvinculada da sua prática (ambas se co-constituem), e a teoria-prática é diversa porque os contextos e objetivos são diversos. Ao longo do semestre, diversas vezes nos perguntamos se isso ou aquilo era uma autogestão. Agora, parece mais claro que essa linha divisória é muito mais difusa do que eu imaginava, e que a autogestão não é um modelo político em si, mas sim um método utilizado de diversas formas, por diversos grupos, e que constitui a ideologia política daquele grupo.

            É claro que nem tudo é autogestão somente porque é horizontal, e nem toda autogestão é estritamente horizontal o tempo todo. Mas como pudemos ver, a autogestão é geralmente utilizada por um grupo social com o propósito de empoderamento coletivo, através da implicação e participação de todos sobre as decisões que afetam o grupo. Ela demanda trabalho e impõe contratempos (como pudemos experimentar), mas também cria um laço maior entre as partes do grupo e faz com que todos se sintam parte efetiva o que se constrói.

            A ideia de cursar uma disciplina sobre autogestão que fosse autogestionada nos permitiu vivenciar com maior intensidade o objeto sobre o qual nos debruçamos, olhando-o de fora e ao mesmo tempo de dentro.

            A oportunidade de ouvir os diferentes relatos e experiências, tanto dos convidados das aulas de prática e vivências quanto dos próprios membros do grupo foi inestimável. Pude refletir, ao longo do semestre, sobre ideias que tinha como certas, e que foram desconstruídas por conversas em sala e experiências fora de sala. Também pude re-afirmar concepções políticas que já trazia (tanto para mim como diante do grupo). Entendi que este é um assunto complexo, porque suscita concepções e vivências diversas, onde nem sempre há um meio-termo. Aprendi a valorizar essa diferença, entendendo que nem sempre essas opiniões irão encontrar um consenso, mas que essa diversidade é produtora. E que é de urgente importância que algumas opiniões políticas aprendam a respeitar suas diferenças, para que possam visar um projeto que é comum a elas, como é o caso dos movimentos sociais.

            Talvez o que mais tenha me impactado ao longo destes seis meses tenha sido a visita de Lurdinha. Essa conversa nos impôs a questão da diferença entre chegar a ideias políticas pela observação e reflexão da realidade social, e chegar a estas ideias porque a realidade social se impõe de forma brutal em sua vida e, sendo você o elo mais frágil dessa realidade, a luta contra uma ideologia política dominante e injusta se torna a única saída possível. A visita de Lurdinha também propôs questões sobre a diferença em acreditar em algo, e vivê-lo 24 horas por dia.

            Bom, após toda essa livre associação de ideias sobre o que foi compartilhar essa experiência com vocês ao longo dos últimos seis meses, é hora de olhar para frente, e as possibilidades são infinitas. Por isso, nosso próximo e último encontro será um espaço propício para destrinchar e planejar essas possibilidades.

Com carinho,

Paula Pimentel Tumolo

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