Diários de ressonância – Luisa Sader

Diário de ressonância: Práticas autogestionárias
Luisa Sader Guimarães Dias 10/12/2013

“Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.”
Antonio Machado

A ideia de uma disciplina autogestionada sobre autogestão me caiu quase como uma salvação. Já há dois anos participando e vivendo todas as contradições e complicações de um espaço autogestionado, pensei ter achado a solução para os problemas e as angústias que me afligiam. Eu finalmente iria aprender o que é autogestão, finalmente ia deter o conhecimento sobre essa forma de organização tão presente e ao mesmo tempo tão estranha a minha vida. A partir disso, todas as questões se diluíriam quase que de imediato. O C.A funcionaria perfeitamente e eu aplicaria a autogestão em outros espaços da minha vida. A revolução estava iminente.

Então, vieram as primeiras reuniões e as dificuldades de se montar uma disciplina, uma ementa, uma bibliografia. Neste momento, os problemas de praticar a autogestão imersa em uma lógica hierárquica, burocratizada, cristalizada da universidade começaram a aparecer, e uma estranha sensação de intimidade me foi surgindo. Dificuldades em marcar as reuniões, em tomar decisões, em se comunicar; discussões muitas vezes prolixas; a urgência na realização de certas tarefas que estrangulavam os encontros; o desespero em relação ao número de pessoas. No meio de tantas incertezas de um curso que se formaria em seu curso e o pragmatismo galopante da vida contemporânea, finalmente, começamos a disciplina.

Mais uma vez fomos massacrados pelo tempo. A proposta da disciplina foi apresentada, os grupos tiveram um momento para pensar em mudanças e outras propostas, mas não conseguimos compilá-las e dar um direcionamento. Ficou decidido que os grupos mandariam suas propostas pro blog e na semana que vem decidiríamos. No curto (ou longo?) espaço de uma semana, muitas propostas se perderam e poucas mudanças foram efetuadas.

Uma grande aposta da disciplina foram os textos. Embebidos também pelo espírito acadêmico –sem diminuir sua importância-, as aulas eram centradas nos textos e as possíveis discussões que emergeriam destes. Acreditei na possível tentativa de captura de um conceito definido de autogestão, o que me trouxe logo frustração. Os textos não davam conta do que eu vivia e pareciam muito distantes de uma prática concreta. É claro que conseguimos traçar alguns nortes desse modo de organização. Há uma impossibilidade inerente de uma prática autogestionária que esteja a serviço de ideiais fascistas e capitalistas; autogestão pressupõe autonomia, diluição das relações de poder, autodeterminação por parte do coletivo. Mas, e aí? Há um hiato abissal entre esses conceitos e o delineamento de uma vivência autogestionada. Minha frustração e consequente falta de interesse no espaço da aula partiu de uma expectativa quase irreal que nutria dentro de mim, como se certas conceituações fossem, de fato, me trazer respostas e, além, fossem me trazer formas e modelos de exercer a autogestão.

Se os textos não atenderam às expectativas o oposto se deu com as narrativas e as assembléias. Foram muitas histórias narradas, vidas e afetos sendo expostos naquele espaço, e todos muito distintos e singulares. As formas de organização, de metodologia, de objetivo eram variadas e surpreendentes. Algumas até suscitavam a dúvida: isso é autogestão?

Por que não?

As assembléias foram também espaços muito potentes. As insatisfações colocadas -seja da metodologia do dedinhos, seja do curso, dos textos- transformavam aquele aula em um eterno devir. Quantos deslocamentos não promovemos naquele espaço? A própria aula de expressão artística, que fugia totalmente ao roteiro da disciplina e da maioria dos participantes, emergiu da assembléia.

Sem dúvida, as práticas autogestionárias promoveram rupturas com formas tão antigas e engessadas do que entendemos enquanto aula e conhecimento. Polos binários professor/aluno, teoria/prática se diluíram e se misturaram naquela dança junto com as minhas frustrações.
Ao meu ver, não é possível promover um corte e designá-lo como sucedido ou fracassado. Não passa por aí. A disciplina foi em si e para além de si autogestionada com todas as intermitências e paradoxos que essa noção me remete. De fato, não sei dizer se sairei conhecendo o que é a autogestão, mas, definitivamente, a terei vivido neste (per)curso.

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