Diários de ressonância – Jessica Prado

Diário de Ressonância:Práticas Autogestionárias na Prática

Em primeiro lugar gostaria de colocar a minha satisfação em fazer parte desse grupo que não só me propiciou ótimos momentos de discussão e reflexão, mas também me permitiu fazer parte do processo, me deslocando de um lugar já tão dado. Nesse quase cinco anos no Instituto de Psicologia muitas vezes me vi enquanto aluna, na posição de receber o conhecimento vindo das figuras detentoras desse saber já pronto, já instituído e em um sistema já formatado. Como uma expectadora na janela de um trem, observadora das paisagens que vão passando e vez ou outra parando em alguma estação que chamava minha atenção.

Bom, nessa nova experiência vi um grupo de alunos que saíram desse lugar de expectadores e resolveram construir um novo caminho, imagino que tratando se de autogestão não poderia ser diferente. Quero elogiar não só os que idealizaram essa iniciativa, os que deram força pra a realização e também àqueles que aderiram ao curso trazendo ideias, pensamentos e ajudando nesse processo de construção/reconstrução, que a meu ver ainda continua (e que bom que continua).

Um dos motivos pelos quais me inscrevi nessa matéria foi o interesse por esse tema que anda tão falado, que surgiu a partir de uma definição de Autogestão e os meus questionamentos.
“Entendemos por autogestión el movimiento social, econômico y político que tiene como método y objetivo que la empresa, la economia y la sociedad em general estan dirigidas por quienes producen y distribuien los bienes y servicios generados socialmente. La autogestion propugna la gestión directa y democrática de los trabajadores, en las funciones de planificacion, direccion y ejecución” (Iturruspe, 1988).

Como funcionaria esse processo, não só dos trabalhadores, mas de um grupo de pessoas no planejamento, direção e execução da gestão? Hoje vivemos em uma democracia representativa, através de uma votação elegemos representantes que tomam decisões em nome daqueles que os elegeram. Esse processo é tido com o incontestavelmente a melhor forma de governo porque provê a população uma forma justa e livre de escolha. O quão livre é essa escolha, uma vez que todas outras formas de governo são tidas como injustas, tirânicas e até ditatoriais. Não seria mais uma ditadura da maioria, aonde as minorias, quando conseguem se fazer visíveis, não tem espaço para expressar sua opiniões divergentes?

Algumas dúvidas que ficam foram exatamente sobre esse processo decisório, existem outras formas de participação que não são a submissão total a uma autoridade dominadora ou um processo democratizado? E como podemos fazer uma gestão participativa? Nesse ponto a participação dos convidados externos foi fundamental, entre outras coisas, para ter acesso de como os grupos estão fazendo a sua gestão. É um processo que dá trabalho, demanda um investimento, vontade de participar e um saber ouvir do grupo, afinal não é possível se chegar a um consenso sobre tudo, mas as decisões precisam ser tomadas e as ações executadas. Podemos ver que esse processo é algo que sempre se reinventa, não é dado, é preciso construir a melhor forma de coletivizar as decisões de uma forma eficiente.

Em relação a estrutura, ausência ou presença de uma hierarquia, segundo o conceito anarquista de autogestão, “se caracteriza por eliminar a hierarquia e os mecanismos capitalistas de organização envolvidos”, mas isso não significa necessariamente uma total horizontalidade nas relações ou seja a partilha de informação e a tomada de decisão ao alcance de todos os membros. Para pensar nessa questão acho importante lembrar o conceito de transversalidade de Guattari, quando existe comunicação entre diferentes níveis e diferentes sentidos, entre vertical e horizontal, muitas vezes esse as relações transversais são inconscientes.

Outro fator que ficou muito claro a partir do depoimento dos convidados, foi o da autoanálise do processo de autogestão, algo que pareceu ser natural e fundamental para os coletivos, uma inciativa que parte de dentro e propicia um entendimento e organização (possivelmente uma reorganização).

Como foi dito nas ultimas aulas, nas quais fizemos (e ainda estamos fazendo) o nosso processo de autoanálise, esse processo é sem fim uma vez que o fim é próprio caminho. Gostaria de destacar uma frase de Vieira (2007) que é fundamental e poderia até ser um lema, “Ninguém acorda ou acordará de um dia para o outro “autogestionário””. Bem como foi visto na teoria e na nossa própria prática, é um processo de reflexão, que deve ocorre em paralelo com a prática do desenvolvimento de uma gestão que seja ideal e singular para o nosso grupo. Deve ser visto como um processo futuro, uma utopia sim, mas uma utopia concreta se valendo dos processos já passados para a visualização do futuro.

Para finalizar esse relato gostaria de salientar algo que para mim é o que há de mais fundamental na autogestão (e na vida!), o desejo. O desejo que impulsiona e que faz com que esse movimento aconteça, desejo que impede a paralisação, desejo que constrói, destrói e reconstrói, o desejo que faz o real. Graças ao desejo esse curso foi iniciado e eu desejo que continue.

Jessica Prado de Almeida Martins

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