Diário – Isabella

Diário de Ressonâncias

 

Na tentativa de criar sentidos para as experiências que vivi no curso e compartilhá-las com vocês, me pego seguindo uma direção um pouco cronológica – volto a um momento inicial de discussões, quando nos colocamos em conflito uns com os outros e com nós mesmos, em nossos hábitos institucionais. Lembro da sensação que tive, do interesse em estar discutindo os moldes da universidade com os meus colegas, muitos bem mais novos que eu, e do medo tremendo do desgaste futuro. Tivemos reuniões que duraram muitas horas e percebo que foi aí que comecei a conhecer as pessoas que habitavam aquele espaço comigo há algum tempo – só quando começamos a discordar, a concordar, a deixar o afeto aparecer. E que dificuldades surgiram daí! Quantas perguntas… Esse momento não foi compartilhado por todos que terminam o curso, mas acho que foi essencial, levantou muitas boas questões, que duram até hoje… Será que tem um limite quantitativo que permita a gestão ser realmente compartilhada¿ Como dialogar com as instituições que atravessam¿ Quais são as instituições¿ Como gerenciar o coletivo¿ Qualquer um pode entrar e sair¿ Como olhar e organizar o referencial teórico¿

Essas são questões que acompanham o curso para mim, suscitando tanto a reflexão no que diz respeito à própria construção do curso quanto no que surgiu nas práticas narrativas. Carlos trouxe a experiência do MST, uma estrutura mais organizada, que funciona por delegação e consegue dar conta da gestão de muitas familias. O Pedro, por outro lado, trouxe uma prática da Assembleia do Largo de dividir em grupos de pessoas menores, com umas 50 pessoas, para que os assuntos possam circular e todos possam participar. Nós mesmos nos deparamos com uma procura grande de pessoas pelo curso e nos deparamos com um movimento de esvaziamento…

Mais do que encerrar a questão em um motivo ou não-motivo, acho que as perguntas tem que continuar a nos fazer perguntar, nos fazer querer saber – de preferência juntos. Na sala, na chuva, no GT Bar (e na fazenda, se alguém tiver alguma…). No acampamento, no sítio, na UFF. Minha vontade é continuar juntando. Já deixo registrado, ressoando durante as férias.

Pensando sobre o curso, sobre as pessoas que chamamos para estar conosco, sinto que ficou uma falta, uma lacuna em muitos desses dias. Gostaria que tivéssemos compartilhado mais do nosso curso, das nossas impressões, do nosso estudo juntos com quem chegava. Quanto a esse espaço para convidados, acho que foi um ponto alto do curso. Sinto que tomamos um susto com a Lurdinha, que nos arrebatou com sua fala. Não conseguimos falar nada, não deu tempo… Eu fiquei encantada, hipnotizada por ela. O que ela trouxe de experiência na manuel congo me tomou. Senti a urgência da luta por reconhecimento institucional, a instabilidade de uma luta diária contra uma lógica, que se infiltra muitas vezes… Percebi na fala dela anos de trato com essas instituições que atravessam a luta pela moradia. Me chamou a atenção a complexidade da situação: como ter um posicionamento ético e ao mesmo tempo estratégico- institucional (muitas vezes essencial para a sobrevivência)¿ Penso que “é preciso estar atento e forte”. Que as reuniões são essenciais, por mais chatas que sejam. Que é necessário ter um conhecimento “técnico” para se conseguir atingir e sensibilizar as pessoas, no caso da Lurdinha, a fala precisa e coerente.

Outra questão que penso é sobre o processo de decisão coletiva. Nós acabamos seguindo a maioria, quem sabe o consenso, nas decisões do curso. Lembro que a Terra Una trouxe a necessidade que eles têm de se ter o consenso, ainda que esse seja um processo demorado. A Lurdinha também falou de consenso na ocupação, e também de algumas regras estruturais, ‘mandamentos’ seguidos por eles, que demoraram muito tempo para serem tirados. Fico pensando que a autogestão é uma construção em movimento – muito dificil de lidar.

Enfim, o que fica ainda é muito. Estou pensando bastante sobre como a gente se afeta, para saber como afetar também. Como chegar no outro? Como construir junto? Como criar um espaço em que não faça sentido ‘fazer por crédito’, um espaço apropriado por todos…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s