Ressonâncias autogestadas (Clara Camatta)

“Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário

O que presta não tem confirmação,

O que não presta, tem”

(Manoel de Barros, Livro sobre Nada)

 

Primeiro dia do curso, cheguei atrasada. Atravesso o corredor em direção a sala aos saltos, a excitação me consome, o olho brilha e o sorriso não se contém. “Está mesmo acontecendo? Saiu do papel!”. Entro na sala e quase os 90 inscritos estão ali. Um turbilhão de pensamentos e sentimentos se mistura: “Será que vão todos continuar? Será que vamos reformular tudo? Será que vai funcionar? Será que a gente vai se ouvir?”. Assustador e desafiante.

A turma estava dividida em grupos para discutir o programa proposto, entro em um deles, ainda muito agitada e vejo que falávamos de muitas coisas, especialmente sobre as manifestações e a EBSERH, mas discutíamos pouco o programa. Em alguns momentos, interrompia a discussão pedindo que fossemos mais objetivos, pois o tempo era curto. Me senti a chata, o reloginho que interrompe os fluxos que se inauguram e os atropela. Ao fim, conseguimos pensar o programa e toda uma folha de caderno estava abarrotada de idéias e sugestões. Lembro de na hora ter pensado sobre como o processo grupal é rico e como ficamos engessados em determinados idéia e circuitos as vezes: em tão pouco tempo surgiram inúmeras idéias que não haviam aparecido em várias reuniões anteriores de elaboração da proposta do cronograma.

Quando abrimos para a turma toda, nossa grande dificuldade logo se apresentou: como sintetizar e discutir todas as idéias em um tempo escasso? Não se tratava mais de alguém falando sobre o tempo da atividade, mas da demanda institucional de que encerrássemos a aula para que a sala fosse utilizada por outra turma. Como deliberar sem sentir que a discussão se esgotou? Como discutir sem fazer com que todas as aulas fossem para pensar o curso e pudéssemos não só pensá-lo, mas vivê-lo? (não que pensar sobre ele não fosse em alguma medida, também, vivê-lo). Pensamos em GTs que se reuniriam na hora final de cada aula para pensar os próximos encontros, uma tática que se mostrou ineficaz. A autogestão demanda maior implicação, mais energia para estar ali e, no final dos encontros estávamos todos exaustos e com uma pressa de ir embora, tornando as discussões dos GTs rápidas e esvaziadas.

Nas aulas que se seguiram, vimos o já esperado, porém não desejado, esvaziamento do curso. As aulas de discussão sobre autogestão, disparador para a disciplina, se iniciaram. Acreditei que agora teria as respostas para os conflitos que vivia em outros espaços autogestados, como o CA e, enfim, conseguiríamos estabelecer um parâmetro fixo para o que é autogestão, uma fórmula para o seu funcionamento. Doce ilusão. As discussões eram sempre muito teóricas, distantes de uma prática e sem conflitos. Todos concordavam e eu só me lembrava de Nelson Rodrigues que diz: “toda unanimidade é burra”.

Líamos que autogestão era uma forma de gestão horizontal, onde todos são protagonistas das decisões e que a defesa de ideais fascistas não cabia nesta forma de gestão que é uma escolha política e não meramente organizativa. Entretanto, as minhas dúvidas permaneciam (e acho que ainda permanecem): tudo precisa ser decidido por consenso? Por que sempre as mesmas vozes soam? Será o consenso unânime?

 Em paralelo a isso, no CA vivíamos um momento de reformulação e grandes questionamentos, com a participação de pessoas que não se viam cabendo naquele espaço e, por isso mesmo, resolveram ocupá-lo. Ocupação que, para mim, foi a maior opção autogestionada, que nos forçou, enquanto coletivo, a problematizar a nossa forma de organização, especialmente por estarmos em um espaço representativo. Ocupação que me angustiou e somou-se à mesmice que se tornaram as aulas teóricas de autogestão, me levando a uma completa falta de tesão pelas quintas-feiras a tarde. Debandei do CA e passei a freqüentar uma ou outra reunião apenas, enquanto insistia no curso de práticas autogestionárias. Insistência que me levou a conhecer outras experiências de autogestão e à constatação mais incrível: nenhuma era igual a outra. Havia versões mais autoritárias, versões seletivas dos seus participantes, versões militantes, versões cotidianas. Sinestesias (ver sons), misturas, possibilidades mil. Desconstruí nestas vivências-narrativas a idéia de uma fórmula para a autogestão. Hoje, ela me parece ser mais uma vontade política, uma escolha ética de viver os espaços coletivos, de ser eu e ser o outro.

“em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós” (Paulo Leminski – Contranarciso)

Nas primeiras assembléias que tivemos para repensar o percurso que estávamos trilhando o silêncio se fez presente. Minha sensação era de que havia um incômodo geral, mas que não sabíamos nomear e fomos tentando tateá-lo, sem nunca chegar ao ponto principal, até que em uma determinada assembléia, a discórdia substituiu o silêncio e os afetos se colocaram. E dos afetos pronunciados surgiu uma aula de arte imprevista. Dinâmica, toque, entrar em contato com o outro. Era o que faltava durante o curso, o espaço de ser íntimo para ser diferente. E, daí, me veio um grande aprendizado: na autogestão, é preciso se conhecer e conhecer o outro, não se sustenta ficar só no espaço da discussão.

Tudo isso me fez pensar no CA, no meu estágio – onde as reuniões supostamente horizontais são verticalizadas – e nas minhas relações pessoais, ressoa para a minha vivência cotidiana o me permitir viver o encontro. Acho que não é a toa que autogestão, especialmente sua versão autogestada, me lembra de gestação. Esse curso surge de um embrião, uma idéia sobre uma disciplina que ganha forma, cresce, se desenvolve e, após alguns meses é parida em uma quinta-feira qualquer. A gestação enfim se encerra e o encontro dos corpos se estabelece olho no olho. Encontro que é e foi a grande produção desse curso pra mim. Encontro de teorias, idéias, angústias, corpos. Encontros fáceis e encontros difíceis. Encontros que foram, são e serão trocas.

“Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.”

(Carlos Drummond de Andrade – Memória)

Carinhosamente e saudosamente,

Clara Camatta

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