Fechamento do curso

Carxs particpantes do curso,

tive que lançar as notas para quem estava inscrito como estudante no curso regular do IP seguindo as deliberações que tomamos no dia 12/12/2013. O certificado para quem cursou como curso de extensão ficou a cargo do João. A deliberação do dia 12.12 foi:

  • para receber nota, os participantes inscritos como alunos do curso de Psicologia do IP deveriam escrever (até o dia 19.12.2013, postergado para o dia 22.12) um diário de ressonâncias e inseri-lo no blog.

Lancei as notas de todos os inscritos no dia 23.01. Oito alunos – alguns participantes assíduos e engajados – não inseriram seus diários e foram reprovados. Alguns deles me escreveram solicitando uma ação e comentando sobre o fato de não terem inserido seus textos no blog.

Em obediência à dinâmica do curso que se pautou, entre outras coisas, por deliberações coletivas escrevo para encaminhar uma resposta ao problema. O que fazemos? (Gostaria de que chegássemos a uma encaminhamento hoje).

Observo que embora o calendário acadêmico de 2013 informe o dia 23.12 como prazo para lançamento de notas, o SIGA ainda está aberto para os professores alterarem as notas.

Anúncios

Diário de ressonâncias – Aymara

Queria fazer algo não verbal, buscando escapar às minhas limitações, mas digamos que fiquei no meio do caminho (que é também um ótimo lugar).
Sentada, nos vários momentos que devaneava sobre essa feitura, elegi não o todo, mas as partes, escolhendo 3 …… (cenas, imagens, fatos, sentimento..etc etc etc etc) que me foram mais caros.O primeiro se fez de supetão, quando buscava o material para montar as colagens. Atrás de colas me deparei com a gaveta das quinquilharias, cheia de CD’s, cassetes e disquetes. Sim, disquetes…. Tive certeza ao vê-los que isso era algo do qual eu queria falar, não de tecnologia, comunicação e “espalhação” de conhecimento, que para acontecer precisam de muito, muito barulho – por mais que isso tenha sido um problema dos mais barulhentos para nós, que com três meios super poderosos de comunicação extra-classe não conseguimos nos apropriar e fazer funcionar bem nenhum.
Não, não… sua função já não é mais difusora, passou ao “vintage”, à memória. Ele está lá para lembrar, de tudo que se passou, do que se perdeu e do que se ganhou, do que se construiu e que se modificou. Olhando para ele só me vinha a importância da memoria, do lembrar e do saber, daquilo que já ocorreu e ocorre, do fazer redes para poder construir algo novo e melhor.
Tivemos muito disso na sala, do novo que urgia por ser criado e recriado a cada momento, buscando não ser capturado, mas que ao mesmo tempo bebia o mais que podia do passado e da história.
Pensando em “memória” me veio “esquecimento”, e me lembrei do rio Lhete – na mitologia grega era um dos rios de Hades, aqueles que bebessem ou até mesmo tocassem na sua água experimentariam o completo esquecimento – me surpreendi de certa forma ao saber que seu oposto (Alethéia) significa verdade e fiquei mordida……
De provocação colei então as palavras em lados opostos do disquete (Lethe e Aletheia), mas o conceito ficou mais bonito que a realidade, então deixo a imagem para a imaginação de vocês, assim também como as razões do incômodo.
O segundo – para mim nevrálgico – são as falas, a organização destas (e por isso os dedos), seu espaço, ou falta de e a necessidade de tornar isso algo menos burocratizado mas também funcional. (colagem 1)
 colagem1
A fim, escolhi terminar com o início, lembrando de uma das últimas reuniões antes do início da matéria, que teve como maior debate a eleição da quantidade de pessoas que poderia (e iria) se inscrever e participar do projeto. Foi uma aposta que não parou de se balançar até o último dia do semestre, dos que apostaram que iriam todos aos que disseram que não iria ninguém, todos temos que lidar com esses fatídicos 90, sua falta (?) ou sua presença em multidões de outras formas. (colagem 2)

Colagem2

Fechamento do curso e lançamento de notas

Carxs e queridxs companheirxs de curso,

já ensaiei o que vou escrever no diário de ressonâncias mas estou aguardando o fechamento do curso para finalizá-lo,

Neste momento escrevo para falar sobre o lançamento de notas e sobre nossa comunicação. Acreditamos que blog, facebook, mensagens etc facilitam a comunicação. Começo a discordar disso. Uma boa comunicação sobre o curso deveria ocorrer ao longo das aulas com nossas combinações e acertos.

Pois bem, combinamos em sala mas ficamos de comunicar a todos pela vias internauticas, digitais e eletromagnéticas que o diário deveria ser inserido no site até o dia 19/12 – ontem – e tivemos como resultado que muitos não postaram seu diário de ressonâncias. Muitos dos que participaram ativamente do curso. Como combinamos que a aprovação na disciplina está vinculada também ao diário, peço que quem não postou suas considerações que o faça até dia 22/12/2013 pois na manhã do dia 23/12/2013 lançarei as últimas notas e o SIGA fechará o acesso para lançamento de notas por parte dos professores.

Como não temos mais aulas e encontros presenciais da turma, peço que divulguem esta notícia pelas vias presenciais, internauticas, digitais e eletromagnéticas.

Professor Francisco Portugal

Diário de Ressonância – Bruno Pizzi

A proposta de avaliação do curso foi a de produção de uma análise de ressonância. Portanto, pretendo fazer uma breve avaliação das minhas expectativas com o curso e algumas repercussões que o processo me causou. Em uma avaliação feita em sala, uma das colegas apontou que, talvez pela pouca coesão do grupo, as discussões não foram muito duras. Sinto-me bastante contemplado por esta ponderação e acho que deve haver muito trabalho para que se conquiste um nível de discussão – e pertencimento grupal – que alie combatividade e edificação. Gostaria que as pessoas que lessem este relato considerassem o esforço de ampliar a discussão num sentido criador, mantendo sempre a cordialidade. E estarei pronto a receber interlocuções.

A avaliação que faço da iniciativa do curso é muitíssimo positiva. Muito bem vinda em função de diversos fatores. Falar de autogestão é, para mim, necessariamente falar de organização social e encaminhar uma discussão a respeito de política. Como estudante da graduação do Instituto de Psicologia entre os anos de 1998 e 2003, noto que alguns professores se dispunham a incluir questões políticas em suas aulas, mas não da forma como estava proposto de saída pelo curso. Temas como marxismo, anarquismo, história de movimentos sociais, geralmente estiveram fora de pauta, assim como uma discussão sobre os autores clássicos, sejam eles liberais, sejam eles socialistas. Nas raras disciplinas em que havia a introdução de temas políticos, esta discussão se dava a partir de autores mais recentes, privilegiadamente os da escola de Frankfurt – Adorno, Horkheimer, Benjamin – ou Foucault e os pós estruturalistas. Nada contra estes autores, acho que eles encaminham uma série de questões importantíssimas para o nosso tempo, mas fundamentalmente não partem de um zero. Partem e se embasam – concordam, contestam, criam e modificam vias de interpretação e ação – em uma discussão a respeito de história, política, economia e sociedade presente em autores que remontam o início da época moderna. Portanto, particularmente, considero que esses autores clássicos – assim como a discussão sobre o modelo de sociedade em que vivemos – devem estar presentes e logo de início achei, e continuo achando, que a iniciativa de pensar a disciplina sobre autogestão pode ser a de gerar um local privilegiado de estudo a respeito disso.
Ao chegar nos encontros preliminares – aqueles dois primeiros encontros antes da disciplina começar – confesso que esperava uma base um pouco mais sólida. Mas como estávamos no início do processo, aqueles dois encontros serviriam para pensar esta base, que seria posteriormente apresentada ao grupo ampliado. Esse grupo faria algumas alterações na base proposta pelo GT de Didática, o que deflagaria o processo pedagógico. Pessoalmente, avalio que este processo inicial não funcionou. Durante os dois encontros iniciais, nós não conseguimos pensar a estrutura das aulas – justificativas, objetivos, linhas argumentativas, bibliografias – para as aulas seguintes. Acabamos nos envolvendo com questões – sob minha ótica retrospectiva – acessórias, como principalmente avaliação. E até elucubrações sobre publicações, etc. Enfim, nosso sentimento ao final dos dois encontros era de que não havíamos produzido o suficiente, mas que a dinâmica grupal poderia desencadear o processo pedagógico.
Pessoalmente acho que isso não aconteceu. Minha avaliação retrospectiva é a de que os professores talvez pudessem ter conduzido de uma forma mais próxima a montagem do programa. Sei que estamos num processo autogestionário e que esse não acompanhamento pode ter sido intencional. A autogestão tem como princípio o apagamento das separações hierárquicas, a supressão das verticalidades. Em contrapartida penso que ao tentar tocar adiante um projeto comum, cada qual deve tentar disponibilizar o que tem de habilidade que condiz com o objetivo final. Acho que nesse sentido, caberia aos professores auxiliar com o conhecimento que tinham em determinados campos ou com sua capacidade de pesquisa em temas em que não havia integrantes do grupo que dominassem. Não digo que isso não tenha acontecido em nenhum momento, mas para as próximas oportunidades esse acompanhamento pode auxiliar na coesão pedagógica do projeto. Acho também que não devíamos excluir a possibilidade de convidar professores de outras unidades da universidade para falar de temas teóricos. Nosso campus é bastante rico professores que poderiam contribuir com os temas que estavam pautados no nosso esboço de programa de aulas. Acho que esta seria uma iniciativa muito bem vinda em termos de integração com outras unidades como Economia, Educação e Serviço Social.
A meu ver, em termos pedagógicos, o que tivemos foi isoladamente algumas iniciativas de montar aulas – que foram muito proveitosas – mas que não podem ser confundidas com um planejamento mais amplo.
Outra iniciativa que também acho que foi muito boa na proposta do curso foi a ideia de discussão sobre as práticas de gestão e autogestão em outros grupos. Mas, assim como nas aulas, acho que houve, na maioria das vezes, um certo embotamento na discussão. Acho que o que tivemos foram algumas ótimas apresentações de movimentos como os do MNLM, do MST, do projeto de habitação coletiva, cujo mérito talvez possa ser atribuído, a meu ver, muito mais à capacidade elocutória e ao nível de envolvimento orgânico dos convidados com as questões. Mas acho que não conseguimos encaminhar a discussão de forma que ela chegasse ao nível de tratar as polêmicas atuais, e fazer surgir os posicionamentos particulares. Um dos encontros em que isso ficou bastante marcado foi o que tivemos como convidados o integrante da FIP e a integrante da Assembleia do Largo. Em minha humilde avaliação, acho que o grupo não propiciou um espaço adequado para a circulação de ideias e a contraposição de propostas de forma que tivéssemos verdadeiramente um fórum de polêmicas edificantes sobre temas candentes. (Quando eu digo ‘o grupo’, claro que também me implico nisso…)
Considero também que pode ter havido uma série de fatores que confluíram objetivamente para a gestação da proposta do curso. Imagino que devem ter contribuído bastante a experiência do grupo de estudantes com a gestão do Centro Acadêmico – e os estudos que devem ter advindo daí -, assim como o momento de explicitação da turbulência social pela qual passamos desde junho. A questão “O que fazer?” parece estar à flor da pele dos que tem participado mais ativamente.
Sobre a questão da autogestão do CA, gostaria de fazer algumas considerações, sempre em tom cordial… Ao que me parece – por favor, corrijam-me se eu estiver errado! – a iniciativa de promover a autogestão é uma tentativa de ampliar a participação dos alunos nessa instância e parece vir no contexto da saturação de uma certa forma de condução do movimento estudantil – ou dos movimentos sociais se virmos de forma ampliada. Esta forma saturada é a de aparelhamento dos movimentos por instâncias – partidos políticos e sindicatos, principalmente – que agem por verticalizar e inviabilizar a participação ampliada, dando mostras de que “são sempre os mesmos” que ocupam as tribunas e transformam os locais de reivindicação social em espaços de usufruto privado de poder, desde o nível micro até o nível macro.
Não tenho qualquer pretensão de dar solução a essa questão tão premente nos dias de hoje, mas quero apontar algo. Acho que devemos pautar, em caráter de urgência, as contradições das formas “tradicionais” de participação. Acho que esse é um dos motivo que me trouxeram ao envolvimento com esta autogestão. Já participei de fóruns hegemonizados desta forma e acho extremamente danoso à mobilização popular e ao avanço da consciência de classe algumas coisas que acontecem. No entanto, muito da luta que se empreende – tanto na universidade quanto na sociedade ampliada – é feita por pessoas que participam dessas organizações ditas tradicionais. Quando estas pessoas transitam da organização partidária ou sindical aos fóruns circunscritos, elas carregam algo que, pessoalmente, considero essencial para a luta social em qualquer instância: um projeto de sociabilidade. O entendimento de que a sociedade funciona de uma forma e a proposição de que deve funcionar de outra determinada forma a partir de mediações específicas. Essas pessoas estão diretamente envolvidas nas lutas específicas como vemos cotidianamente. Um exemplo bastante próximo de nós é a tentativa de barrar a gestão privada dos hospitais universitários, que conta com a participação – decisiva, a meu ver – de estudantes partidarizados. Este projeto societário é algo que se forma coletivamente. Creio que um desafio para o nosso tempo é o de lidar com os problemas da organização popular sem cair em segregacionismos, divisionismos. Acho que a verticalização extrema promovida por alguns setores dos movimentos sociais é um problema para a organização popular, e não vejo a saída para o extremo oposto – a completa horizontalização – como a melhor das estratégias. Acredito sinceramente que no nosso caso o novo se faz com elementos do antigo.

Infelizmente não consegui participar das exibições do Cine Comuna Amarildo. A ideia foi muito boa e a seleção dos filmes foi fantástica…

No mais, gostaria de dizer que sou bastante grato em ter participado deste processo.
Bruno Pizzi.

Diário de ressonâncias – Ruan Rocha

Eis sua família, sua mãe, seus pais, seus avós.
Bem-vindo a esse sangue, esses ossos.
Por que você perdeu a voz?

Eis sua comida, eis sua bebida, eis o jantar.
E uns pensamentos, se quiser pensar.
Bem-vindo ao lar.

Eis sua estrada da vida quase virgem
Bem-vindo a ela, a essa miragem.
Mesmo assim, boa viagem.

Eis seu aluguel, eis seu pagamento.
O dinheiro é o quinto elemento.
Bem-vindo ao investimento.

Eis sua colmeia, o enxame, multidões.
Bem-vindo a tantas populações:
Você é um em cinco bilhões.

Bem-vindo à lista telefônica onde reluz seu nome.
Numa democracia, um dígito é um homem.
Bem-vindo à busca de renome.

Eis seu casamento, e eis um divórcio todo seu.
E agora os erros irreversíveis que cometeu.
Bem-vindo, você se fodeu.

Eis você com a lâmina junto à jugular.
Bem-vindo, autoterrorista singular,
Ao seu Oriente Médio particular.

Eis seu espelho, eis sua pasta de dentes.
Eis o polvo no seu sonho recorrente.
É seu esse grito de demente?

Eis o sofá, a TV, o debate sobre a crise.
Eis seu candidato falando cretinice.
Bem-vindo ao que ele disse.

Eis sua varanda, o carro que passa apressado.
Eis seu cachorro cagando na sala, folgado.
Bem-vindo ao seu olhar culpado.

Eis as cigarras e eis um pássaro piando à tarde.
A lágrima que pinga no seu chá pela metade.
Bem-vindo à eternidade.

Eis sua radiografia com uma mancha no pulmão.
Bem-vindos os comprimidos para o coração.
Bem-vindo seja você à oração.

Eis sua tumba, o cemitério que se estende além.
Bem-vindas as vozes que dizem “Amém”.
É o fim para você também.

Eis seu testamento, mas ninguém o lê.
Eis sua missa, mas rezar quem há de?
Eis a vida sem você.

E eis as estrelas que não estão nem aí
Para você ter ou não estado aqui.
Meu velho, é isso aí.

Eis que não sobrou nada do seu passo.
Da sua face não ficou traço.
Bem-vindo ao espaço.

Bem-vindo, aqui não se respira.
No espaço aberto tudo expira.
Só Saturno segura a pira.

DIARIORESOO

Diario de Ressonancias coletivo

 

                          UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ

                  Geórgia Lau; João Pedro Simões; Rafael Ostrovski; Victor Cumplido
                     Praticas Auto Gestionárias – Diário de Ressonâncias coletivo

 

chatíssimas

são as pessoas

que falam sobre Anarquismo

sem um pingo de emoção

        Para a elaboração do diário de ressonâncias, pensamos em um diário coletivo pois acreditamos que assim tomamos com mais atenção os vetores relevantes, bem como imaginamos que a elaboração em conjunto pode ser importante para que sejam lembrados também, vetores menos óbvios. Acreditamos que uma prática coletiva deste tipo de exercício pode também ser importante para lembrarmos mais uma vez da autogestão e deste modelo de organização entre um determinado grupo. Não queremos que transpareça uma leviandade de cada um ou algo do genêro, mas todos viemos experimentando ações coletivas nos últimos tempos, e a força de se estar em grupo é algo que ultrapassa as qualidades e possibilidades de um indivíduo apenas. Além disso, podemos perceber que este exercício coletivo foi importante uma vez que passamos a trocar algumas impressões sobre as aulas e discutimos pontos em dissonância, acreditando que a soma de todas as partes é prerrogativa para um todo. Quanto mais se soma, mais se tem a ganhar. Mesmo que sejam apenas possibilidades a serem discutidas. A ideia de se fechar um todo – completá-lo ou tomá-lo como algo dado – é oposta ao múltiplo embate de ideias. Esse último é o que permite a criação de algo novo, o contato com o inesperado.

O curso começa com uma ideia diferente daquela mais convencional nos meios acadêmicos. Teoricamente, o curso deveria ser gerido e ministrado em conjunto, sem hierarquização de poderes, horizontal, autogerido pelos que estavam interessados no programa, sem distinção entre as funções instituidas pela universidade. Ou seja, na turma havia um grupo misturado de alunos da graduação, professores, alunos de extensão, interessados, estudiosos e pesquisadores do tema, de diversas áreas do conhecimento. Sendo assim, não deveria haver alguém que respondesse por todos, que representativamente escolhesse a direção a seguir, mas todos os passos deveriam ser tomados em uníssono e coletivamente, da maneira mais apropriada que pudéssemos elaborar. Há de se reconhecer o esforço de se levar a cabo tal ideia, e a validade que a aplicação prática desta tem para os alunos, professores e para a instituição.

 

“(…) Não se pode negar que se trata de uma fascinante ciência. Farto estou de haver visto homens  cultos, literatos, poetas, políticos que procuraram e acharam nessa ciência o seu mais elevado conforto e a sua última finalidade, apenas tendo conseguido fazer carreira mediante emprego de tais dons.” O Idiota, Dostoiévski.

As primeiras aulas foram basicamente alguns acordos que precisávamos fazer, como por exemplo se iríamos sentar em roda na sala e como funcionaria a comunicação entre os participantes, e se esta seria celular ou não. Infelizmente houve uma precipitação por parte de algumas pessoas mais inflamadas em tentar formular um método adequado para o encaminhamento das aulas, o que, apesar da boa vontade, acabou por sair como um tiro no pé. Isso foi um resultado de certa forma esperado para um experimento deste tipo numa instituição como a nossa, uma vez que ela nos impõe prazos, metas, pressupostos, razões e outras questões burocráticas que fazem com que discussões sobre a metafísica da nossa prática e os conceitos que poderiam ser criados coletivamente neste espaço/tempo, acabassem sendo deixados como secundários ou menos importantes.

EEEPPAA.. e faltou também além da metafísica algo que nos tirasse constantemente do lugar comum, algo que não trouxesse conforto, mas desconforto!

Embora saibamos os limites que nosso corpo habita neste tipo de cenário institucional, acreditamos ter havido uma despreocupação filosófica geral no que tange a elaboração do próprio conceito de autogestão e do conceito de curso acadêmico, uma vez que, tomados como pressupostos menos importantes, ao invés de serem repensados e resignificados coletivamente, acabaram servindo apenas como um desestimulante geral para os inscritos na disciplina, uma vez que muitos dos que estavam ali não sabiam o quê estavam fazendo no curso, para quê estavam fazendo, ou simplesmente não quiseram saber como iriam fazer qualquer coisa ali dentro. Ou seja, a ideia era fazer um curso autogerido sobre autogestão, mas o que aconteceu é que não foi discutido – ou foi muito pouco – o que significava para nós o conceito autogestão, muito menos como autogerir um curso acadêmico. Algumas soluções que pareciam brilhantes na hora foram capturadas quase que automaticamente, apenas por não haver sugestão melhor naquele momento. Isso gerou um efeito bola de neve, mas ali não teríamos como saber onde ia dar, muito menos teríamos a presunção de afirmar que as coisas, do jeito que caminhavam, não iriam terminar tão bem.

Ok, não vamos dizer que não deu certo. Mas também não vamos fingir que funcionou da melhor maneira. Não acreditamos também que o processo se daria sem tropeços naturais, ainda mais conhecendo os trâmites institucionais que pairam suspensos no ar universitário. Porém, julgamos que deveria ter havido uma maior preocupação com a essência das questões mais triviais, como criação de conceitos, calendário, práticas ou simplesmente a criação de métodos de estímulo a participação de todos. Podemos até mesmo afirmar que houve ingenuidade quando não foram pensadas estratégias para a promoção da participação e integração entre os membros do grupo, ou seja, por determinar que as pessoas, apenas por estarem presentes naquele espaço, estariam em um estado de coletividade e que isso possibilitaria ao grupo autogerir-se.

 

“Monotonal.

Sua fala é como um zumbido

o cérebro recebe ondas-alfa

eu quase durmo”

 

Alguns de nós, em certos momentos, sentiram-se como que imersos em angústia semelhante à d’O Processo de Kafka: havia uma tentativa de elaborar a situação, compreendê-la em seus descaminhos, mas ao buscar soluções, se viam perdidos a um meio que funcionava de modo maquínico, impessoal, e portanto sem ter a quem recorrer de forma comunicativa. Ainda que o espaço da fala estivesse aberto nas aulas, a sensação é de que todas eram de alguma forma capturadas, perdendo-se a ideia original do postulante, tornando-se algo coletivo, porém não necessariamente bom por isso. Essa sensação foi compartilhada não apenas por nós, mas por outras pessoas do curso com quem trocamos idéias sobre a aula durante o semestre,  havia o sentimento de falta de espaço de expressão, além de uma crítica constante à forma como as discussões eram conduzidas; observava-se literalmente mais uma vontade de cada um em expor uma fala do que ouvir a posição do outro e propor algo a partir desta. Não eram feitas perguntas, a impressão passada foi a de vários monólogos sucessivos disconexos, na maioria das vezes (isto no contexto das aulas expositivas).

—- E tiveram os bons momentos também. Ouvir experiências práticas de pessoas que vivem algo do tipo foi enriquecedor, poder partilhar de alguma forma dessas histórias e lutas. Havia ali a necessidade explícita estampada, precisamos da autogestão pra funcionar, pra que as pessoas neste contexto vivam, não escolheram isto, o aspecto foi tomando contorno, se desenhando.

Quando nós pensamos no significado de grupo, gostaríamos que fosse apenas definido como mais de uma pessoa em conjunto. Porém, consultando rapidamente qualquer dicionário de bolso (PRIBERAM), podemos agregar novos horizontes de significação. Embora o primeiro e mais obvio significado seja o de ‘um número de pessoas ou de coisas que formam um todo’, ou de ‘associação’, preferimos pensar no significado de grupo como corpo o que, curiosamente, é apenas o quinto significado conotativo mais utilizado para ‘grupo’. Uma inesperada surpresa foi encontrar o sexto significado do termo sendo utilizado para designar ‘mentira’. Porém, ao nosso ver, a questão principal é que não houve em momento algum uma discussão como por exemplo ‘o que é um grupo pra você?’ ou ‘o que você espera desse grupo’, porque praticamente sempre habitamos espaço carregado de atravessamentos institucionais dentro da UFRJ, o que significa dizer que algo como um grupo, que sempre teve o significado institucional pressuposto neste ambiente, deveria necessariamente ser também resignificado, uma vez que se propunha algo nunca visto antes no Instituto de Psicologia, e que este trabalho deveria ser assumido por um grupo/corpo.

PEDRO, NÃO SEJA UMA PEDRA DE TIMIDEZ

 

           Pedro pintou a cara de pedra                                                                          

musgo e parasita

passando a ter dificuldade em

sustentar o próprio crânio                                                                       

com o pescoço

uma cabeça de 90kg

 

a cabeça pesada o trazia pra frente

então suas costas começaram a doer

– putaqueopariu, pensou Pedro,

estou com dor nas costas

 

titubeou para frente

cambaleou para trás

e visto a impossibilidade de manter-se

de pé

permitiu-se,

culminando em uma cambalhota ridícula.

assim, Pedro pedra ridículo I passou a lo-

comover-se.

 

o sindicato, então, interviu.

– Pedro pedra, isso não é jeito de andar,

isso daí é ciganagem.

as crianças não podem te ver,

e os velhos não vão te suportar.

 

Pedro padrão, subitamente desperto para

a sua posição de elemento constituinte no todo maior sindical,

tentou acender a fogueira empapada à querosene

com a ponta de seu cigarro de palha,

inutilmente porém.

Inclinado ao desespero pelas circunstâncias adversas, lágrimas brotaram-lhe nos

olhos, escorrendo até a boca e depois a barba. O medo possuiu-lhe e então lembrou-se de sua avó querida.

Uma chance em sessenta e três bilhões, lembrou-se do documentário que passou

na tv. Uma centelha surgia, e a fogueira incandesceu subitamente.

               Combustão  espontânea significa milhares de insetos desfalecidos.

Acreditamos que a ideia de corpo é essencial para pensarmos em células micropolíticas e na integração sistêmica dos corpos que constituem este corpo/grupo, pensando em consequências naturais de relacionamento organoléptico real, esta entendida como propriedade dos corpos aptos a causar uma impressão nos sentidos. Acreditamos que pensar em um corpo possibilita existir uma relação que extrapola as lógicas mecânicas das ações instituidas, possibilitando toda uma abertura ao devir e à interação interpessoal. Além disso, nos possibilita uma reapropriação do tempo/espaço em que a pessoa está inserida, necessariamente pela integração dos sentidos que atravessam como forte vetor e que nos remetem a um funcionamento orgânico, o que usualmente é mal considerado nos meios verborrágico-descritivos que a academia vitupera.

A noção de corpo quando relacionada à de órgãos, leva à prefiguração de um Organismo, o qual pressupõe Organização, no sentido de uma Unidade funcional. Enquanto conceito remonta ao Organon aristotélico. Sem dúvida um dos conceitos mais enraizados em nossas mentes e coexiste com um conjunto de outros conceitos também cristalizados e que permeiam e orientam nossas falas: Unidade, Identidade, Totalidade, Ordem, Hierarquia, entre outros, e isso, sob a égide da lógica binária e do modelo arborescente de pensar, de relação causa/efeito, evolução linear.  Este texto procurará sair da conceituação pertinente ao “mundo da representação” enquanto percepção macro (molar) e enveredar por outro caminho, ou seja, um entendimento micro, molecular, das práticas urbanas, pretendendo esboçar, na limitação do espaço disponível, que a cidade, enquanto processo de um conjunto de experiências, constrói seu “Corpo sem órgãos”.

DUREZA

 

Você até tem boa dicção, mas daí a dizer que é atriz… acho um pouco demais. E ainda mais humor, Cremilda… Fazer humor? Você facilmente poderia estar trabalhando em um banco!  

Você , Cremilda, é daquelas que poderiam ser, que poderiam ter feito alguma coisa. Mas não foi, e não será, simplesmente porquê não aconteceu. Não existe razão,lógica ou explicação. Cremilda, essa é a vida.

Se f: [a,b] -> R contínua, e mE[f(a), f(b)], existe um c e [a,b], tal que f(a) = m.

Cremilda, aprenda a matemática a vera, pois o banco lhe espera. Logo, se f: [a,b] – > R Cremilda tem razão a e lógica b, e em E[f (a), f (b)] persiste um cú de atriz… Tal que f(cc) = Martha.

Martha é a sua gerente Cremilda, e seu lugar agora é no caixa 4, onde você passará as próximas 40 horas das suas 52 semanas de seus próximos 40 anos de vida profissional. Sentada.

Cremilda deu um pinote pra trás, como se tivesse lembrado de um momento humilhante semelhante, apesar de jamais , nesta vida, ter passado por algo parecido.

 

Disse:

– Não!

 

A calcinha na cabeça. A chuva lá fora em nada inibiu sua corridinha.

 

Conclusão: IPUB!

 

Foi ser feliz no IPUB.

 

Lou(cura).

que porra de final é esse?

 

é duro fio, é duro..

 

e aonde vai parar?

 

pra onde vai a partir disso?

 

vamos terminar na lou(cura)?

 

estamos condenados a isso?

 

só espero que nao tenha parênteses..

 

Diários de Ressonância Por Thiago Colmenero

Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 2013

Gestão de que? Da cidade, de direitos, de deveres, de espaços, de vidas. De vidas. Falar em autogestão é trazer para si a responsabilidade, ao mesmo tempo que se compartilha funções e atividades para assim construir caminhares. Plurais. Sempre plurais, nunca à direita, passando por anarquias, esquizoanálises, análises institucionais, socialismos, marxismos. Trazer perspectivas criticas para falar da historia, da cultura, da cidade, da economia, de um regime de fazer viver onde caibam mais pessoas e vozes.

Per-correr exige dois modos de presença: de um lado, uma atenção ao aqui e agora a cada detalhe exposto ao seu redor. Processos esmiuçados, muitas vezes intermináveis: GT comunicação, GT divulgação, GT didática, GT bar! Atenção dedicada a cada movimento, ação, cheiro, olhar, cor, sensação, vozes, falas. De outro lado, um desassossego provocado por aquilo que lhe é estranho – “que merda de aula é essa?” Diriam alguns. Dois modos de presença intensas e paradoxais. Como correr em um lugar que não se conhece? Como estar confortável em um lugar nunca visto antes? O que se faz presente é a ineficiência de qualquer tentativa de explicar, entender ou interpretar o que acontece. São pessoas. Não são objetos. São e não são pessoas e objetos. Processos.

Posso dizer que de largo, o mais interessante em fazer parte desse processo foi escutar, sentir e entrar nas histórias, relatos e ressonâncias dos “convidados” que quase toda semana vinham na disciplina, falando mais da segunda parte do curso. Ter dimensão do macro e da micropolítica inscrita em práticas autogestionárias cidade a fora (sejam relativas às manifestações, às moradias, ao trabalho) comunica muito bem o viés politico de se debater gestão.

Na experiência de caminhar, proposta nesse curso como método, há um processo contínuo de colheita, a partir do qual cada aula vai sendo tecida, os argumentos construídos, as ideias expostas. Fazer do caminhar um método não é coisa trivial. A escolha é proposital, por vir de trilhos da psicologia e da educação, o fio que articula as reflexões é precisamente um dos modos de como é praticada a autogestão, insto é, como é conjugado o verbo conhecer no campo da psicologia e da educação quando se encontra com o que vivemos.

Por Thiago Colmenero