Diário de ressonâncias – Ruan Rocha

Eis sua família, sua mãe, seus pais, seus avós.
Bem-vindo a esse sangue, esses ossos.
Por que você perdeu a voz?

Eis sua comida, eis sua bebida, eis o jantar.
E uns pensamentos, se quiser pensar.
Bem-vindo ao lar.

Eis sua estrada da vida quase virgem
Bem-vindo a ela, a essa miragem.
Mesmo assim, boa viagem.

Eis seu aluguel, eis seu pagamento.
O dinheiro é o quinto elemento.
Bem-vindo ao investimento.

Eis sua colmeia, o enxame, multidões.
Bem-vindo a tantas populações:
Você é um em cinco bilhões.

Bem-vindo à lista telefônica onde reluz seu nome.
Numa democracia, um dígito é um homem.
Bem-vindo à busca de renome.

Eis seu casamento, e eis um divórcio todo seu.
E agora os erros irreversíveis que cometeu.
Bem-vindo, você se fodeu.

Eis você com a lâmina junto à jugular.
Bem-vindo, autoterrorista singular,
Ao seu Oriente Médio particular.

Eis seu espelho, eis sua pasta de dentes.
Eis o polvo no seu sonho recorrente.
É seu esse grito de demente?

Eis o sofá, a TV, o debate sobre a crise.
Eis seu candidato falando cretinice.
Bem-vindo ao que ele disse.

Eis sua varanda, o carro que passa apressado.
Eis seu cachorro cagando na sala, folgado.
Bem-vindo ao seu olhar culpado.

Eis as cigarras e eis um pássaro piando à tarde.
A lágrima que pinga no seu chá pela metade.
Bem-vindo à eternidade.

Eis sua radiografia com uma mancha no pulmão.
Bem-vindos os comprimidos para o coração.
Bem-vindo seja você à oração.

Eis sua tumba, o cemitério que se estende além.
Bem-vindas as vozes que dizem “Amém”.
É o fim para você também.

Eis seu testamento, mas ninguém o lê.
Eis sua missa, mas rezar quem há de?
Eis a vida sem você.

E eis as estrelas que não estão nem aí
Para você ter ou não estado aqui.
Meu velho, é isso aí.

Eis que não sobrou nada do seu passo.
Da sua face não ficou traço.
Bem-vindo ao espaço.

Bem-vindo, aqui não se respira.
No espaço aberto tudo expira.
Só Saturno segura a pira.

DIARIORESOO

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Diários de Ressonância Por Thiago Colmenero

Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 2013

Gestão de que? Da cidade, de direitos, de deveres, de espaços, de vidas. De vidas. Falar em autogestão é trazer para si a responsabilidade, ao mesmo tempo que se compartilha funções e atividades para assim construir caminhares. Plurais. Sempre plurais, nunca à direita, passando por anarquias, esquizoanálises, análises institucionais, socialismos, marxismos. Trazer perspectivas criticas para falar da historia, da cultura, da cidade, da economia, de um regime de fazer viver onde caibam mais pessoas e vozes.

Per-correr exige dois modos de presença: de um lado, uma atenção ao aqui e agora a cada detalhe exposto ao seu redor. Processos esmiuçados, muitas vezes intermináveis: GT comunicação, GT divulgação, GT didática, GT bar! Atenção dedicada a cada movimento, ação, cheiro, olhar, cor, sensação, vozes, falas. De outro lado, um desassossego provocado por aquilo que lhe é estranho – “que merda de aula é essa?” Diriam alguns. Dois modos de presença intensas e paradoxais. Como correr em um lugar que não se conhece? Como estar confortável em um lugar nunca visto antes? O que se faz presente é a ineficiência de qualquer tentativa de explicar, entender ou interpretar o que acontece. São pessoas. Não são objetos. São e não são pessoas e objetos. Processos.

Posso dizer que de largo, o mais interessante em fazer parte desse processo foi escutar, sentir e entrar nas histórias, relatos e ressonâncias dos “convidados” que quase toda semana vinham na disciplina, falando mais da segunda parte do curso. Ter dimensão do macro e da micropolítica inscrita em práticas autogestionárias cidade a fora (sejam relativas às manifestações, às moradias, ao trabalho) comunica muito bem o viés politico de se debater gestão.

Na experiência de caminhar, proposta nesse curso como método, há um processo contínuo de colheita, a partir do qual cada aula vai sendo tecida, os argumentos construídos, as ideias expostas. Fazer do caminhar um método não é coisa trivial. A escolha é proposital, por vir de trilhos da psicologia e da educação, o fio que articula as reflexões é precisamente um dos modos de como é praticada a autogestão, insto é, como é conjugado o verbo conhecer no campo da psicologia e da educação quando se encontra com o que vivemos.

Por Thiago Colmenero

Experiência de tempo para autonomia.

Muitas coisas ressoam no curso de autogestão. Me parece que outras reflexões virão. Mas a primeira delas é sobre o tempo, inclusive por ser o prazo, até hoje. Quinta feira, 19-12-2013 o dia final do nosso acordo junto com entraves institucionais da universidade.

Ainda em uma reflexão ingênua que vai nortear estudos futuros duas questões me parecem centrais. Uma boa definição pra autonomia e para a autogestão. Antes de fazer vários autores conversar esse texto vai ser feito sem uma pesquisa apurada.

A experiência de autogestão é uma busca pela organização coletiva da vida, pela criação de normas próprias de regulamentação da sua própria vida, incluindo aí o trabalho, a alimentação, o lazer, a circulação pela cidade e tudo mais que está presente no cotidiano e às vezes nem mesmo pode ser nomeado. É importante pensar que ao usar o pronome SUA, quero dizer nossa. Ou seja, se tratando de algo que diz respeito a uma esfera que inclua o coletivo e o individual. Neste sentido eu a princípio entendo a autogestão como um exercício em busca da experiência de autonomia. Claro, entendendo que a autonomia como algo que nunca vai ser pleno.

Hoje existe uma palavra que está sendo dita, repetida e reutilizada. Essa palavra é o comum. Palavra que procura uma nova síntese de valores que a afastem de muito que foi dito sobre o marxsismo e/ou o socialismo real. A experiência de autogestão envolve muitas dificuldades da construção do comum. De algo que é gerido por muito, organizado à várias mãos.

Acho que o tempo é central nessas reflexões sobre tentativas de iniciativas autogestionadas. Seja no Centro Acadêmico ou nos relatos sobre o Ocupa Rio, na construção de um curso autogestionado sobre autogestão ou na assembleia do Largo que hoje toma muitas das minhas reflexões me parece que algumas particularidades se sustentam e se cruzam.

O Negri em SP falou sobre uma temporalidade autônoma. Pra relatar esta diferença da experiência de tempo nesses espaços que buscam sua própria organização. Esta experiência temporal é uma experiência outra, de resistência que nos escancara o modo como em geral vivemos. Experiênciamos o tempo pautado por outras instituições. “Externas e internas” que nos compõem, nos atravessam, ora nos guiam, ora nos confortam.

O experiência de autogestão nunca é eficiente, quando transpomos aquilo que vivemos em um cotidiano apressado, onde o tempo é esquadrinhando e pensado em relação a sua produtividade. Esse olhar não é possível quando tentamos construir algo comum. O comum leva outro tempo, o tempo de decisão é lento, é outro. No curso acho que temos bons exemplos disso, sobre o cronograma e sobre as tomadas de decisões.

A experiência de criação do curso ocorreu de maneira corrida, pois havia as exigências da instituição. Éramos poucos, e muito empolgados. Tínhamos um prazo curto, fomos muito eficientes.

Agora toda vez que decidíamos algo no grupo maior, éramos mais lentos. Por vários motivos, e alguns deles vou me ater em textos futuros. (Talvez).

No filme sobre Oaxaca, vimos que alguns povos indígenas tinham assembleias que poderiam durar até 3 dias. Esta é uma experiência de construção de consenso que parece surreal. Ter muita gente debatendo, e pensando em ações conjuntas durante dias. A Lurdinha nos colocou quanto tempo foi preciso até que uma ação de ocupação fosse tomada, o Carlos e o Felipe, nos apontam para o tempo que demora até a construção de alternativas comuns. Entre eles há de comum o fato desse também ser o tempo da própria vida, da luta pela habitação, pelo trabalho e moradia, pela construção do seu espaço, no mato, no campo, ou na cidade. Para nós, nos restava algumas horas em um dia na semana.

Não é preciso mais de uma hora de assembleia pra se sentir cansado, às vezes tive a sensação de que o curso produzia pouco. Mas me parece que esta é uma sensação que está ligada a produto, ou fim. E acho que é importante para os processos autogestionários entenderem que o foco é no processo, não no produto. Por vezes a experiência breve de relativa autonomia já se torna um acontecimento. Quando começamos a questionar certezas antes verdadeiras como rochas, a fazermos pequenas mudanças no cotidiano, a criar ações que tornam uma instituição mais porosa, começamos a desatar fios que se entrelaçam e criam muitos nós. Que amarram nossa vida, nossos movimentos, nossas ações. Este curso certamente foi um pouco disso. Estar ali de 13:30 às 16:30, para construir um caminho comum deixa claro que a construção do comum não tem tempo. Ela dura quanto tem de durar e por isso não seja fácil.

Como diz o Negri, é uma temporalidade que envolve inclusive o gerenciamento da própria temporalidade. Por isso é tão difícil e talvez tão surreal, um curso autogestionado, uma assembleia na rua, um acampamento de fim de semana, talvez sejam alguns dos espaços que às vezes nos permitimos gerir-mos coletivamente nós mesmos. E aí temos outra experiência de tempo, que não é eficiente, que demora o tempo da criação de vínculos, de expressão de potencialidades, de organização, reflexão e planejamento das ações, de investimento cognitvo e afetivo. Essa experiência pode nos fazer pensar em todo o resto do tempo que vivemos pautados por instituições, compromissos, afetos, sentimentos, medos que nos alienam da construção do nosso próprio modo de viver. O tempo para a construção da autonomia, em meios autogestionados leva tempo, muito tempo, e quem sabe até o tempo todo da vida : )

Toni